22/09/2017

Os erros do Comunismo


Partindo de fontes soviéticas, o Padre Baldomero Ortoneda analisou 15 mil afirmações ideológicas comunistas do ponto de vista das ciências naturais, da matemática e da filosofia. Como resultado, descobriu 400 erros científicos, 600 de raciocínio e 200 filosóficos, que a doutrina marxista expressa através das suas três "leis": unidade e antagonismo dos contrários; negação da negação; e transição da quantidade em qualidade.
O trabalho foi publicado no livro Principios Fundamentales del Marxismo-Leninismo em 1974.

18/09/2017

O Tradicionalismo tem que vir da Tradição


Por ocasião da publicação de certas proposições, e por uma incompreensível má inteligência, para não dizer intencional, os jornais disseram e repetiram, com inaudita ligeireza, que Roma, a Santa Sé e a Igreja condenaram o tradicionalismo; o que equivaleria a dizer que a Igreja Católica condenou o princípio fundamental do Catolicismo e se condenou a si mesma; porque no fundo, o Catolicismo não é mais que a tradição apostólica, que nos garante a autenticidade da Escritura, da qual a Igreja é fiel e infalível depositária.

Pe. Ventura de Raulica in «La Tradición y los Semipelagianos de la Filosofia», 1862.

(Via: Ascendens)

16/09/2017

Falácia de inversão do ónus da prova


Esta falácia consiste em exigir o ónus da prova de inocência ao acusado sem prova. Esquema:

Pessoa A acusa de X a Pessoa B.
Pessoa B não aceita a acusação.
Pessoa A exige-lhe prova de inocência.

Este tipo de raciocínio é falso e pode até ser caso grave de injustiça. A presunção de inocência até caso provado, tem um princípio justo. Segundo a falácia da inversão do ónus da prova, a prova caberia ao acusado e não a quem acusa.

11/09/2017

Roma não paga a traidores

Viriato

Em 155 a.C., o Império Romano dominava já todo o território leste e sul da Península Ibérica. Nesse mesmo ano começa a chamada Guerra Lusitana.
Entre 155 e 150 a.C. os combates sucedem-se, quase sempre favoráveis aos lusitanos. Até que, neste último ano, os lusitanos sofrem um grande revés. Tal deve-se à promessa do governador romano, Galba, de oferecer terras aos lusitanos. Mas a promessa era uma cilada. Com os lusitanos concentrados em poucos lugares perto dos romanos, Galba promoveu uma chacina.
Após a matança de Galba, segue-se um período de relativa acalmia. Até que no ano 147 a.C., os lusitanos irrompem num novo ataque aos romanos. Nesta altura, o governador romano Vetílio propõe um novo acordo de paz. Mas contra esse acordo levanta-se Viriato, um sobrevivente da chacina de Galba, que, lembrando aos lusitanos a perfídia dos romanos, apela à resistência.
Viriato, aclamado como "rei" (Dux Lusitanorum), venceu o governador Vetílio. Os romanos reagiram, mas foram quase sempre vencidos em batalha.
Para Roma, a guerra estava a revelar-se um verdadeiro fracasso. Após vários desaires e uma pesada derrota em 140 a.C., os romanos propõem novamente a paz. Viriato firma o tratado e recebe o título de "amigo do povo romano" (amicus populi romani). No Senado Romano, porém, este tratado é visto como uma humilhação, e no ano seguinte, Roma rompe as tréguas e envia um novo governador para terminar a guerra.
O novo governador romano, Cipião, desencadeou uma ofensiva fulgurante, mas Viriato mantém a superioridade militar e força-o a pedir a paz. Envia três emissários para negociar com Cipião, mas este suborna-os, prometendo-lhes grandes recompensas caso matassem Viriato. E assim aconteceu. Enquanto dormia, Viriato foi assassinado à punhalada.
Os lusitanos, enfraquecidos, acabaram por ser derrotados pelos romanos. A morte de Viriato marcou o início da ocupação romana do ocidente da Península Ibérica.
Quanto aos traidores, estes refugiaram-se em Roma, reclamando o prémio prometido. No entanto, as autoridades romanas ordenaram a sua execução em praça pública, onde ficaram expostos com as inscrições: "Roma não paga a traidores".

A morte de Viriato

04/09/2017

Vós sois o sal da Terra


Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da Terra; e chama-lhe sal da Terra, porque quer que façam na Terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a Terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a Terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina, ou porque a Terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra, ou porque a Terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que eles dizem; ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo, ou porque a Terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.
Suposto pois que, ou o sal não salgue, ou a terra se não deixe salgar, que se há-de fazer a este sal e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga, Cristo o disse logo: "E se o sal perder a sua força, com que outra coisa se há-de salgar? Para nenhuma coisa mais fica servindo senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens" (Mateus V, 13). Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer é lançá-lo fora como inútil para que seja pisado de todos. Quem se atrevera a dizer tal coisa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.

Pe. António Vieira in «Sermão de Santo António aos peixes», 1654.

01/09/2017

LIVROS II (Parte B)

(continuação do LIVROS II (Parte A))

Já muitos sabem, mas ainda é notícia. O Pedro Oliveira abriu no Youtube o seu canal pessoal PEDRO DE OLIVEIRA. O blogue VERITATIS recomenda aos seus leitores que subscrevam este canal, que é de inteira confiança e segurança.

Aqui fica uma mostra, com uma listagem dos mais importantes assuntos do vídeo (clicando nas indicações de tempo, na lista, irá ter à parte correspondente do vídeo).

1 - Capela de S. João Baptista - continuação (00:00)
2 - Guerra Marxista na Infância (4:34)
3 - A Rússia em Face do Mundo (6:07)
4 - Convite ao diálogo com a militância dos da "hispanidad" (7:04)
5 - Novidades, informações, e achegas jeitosas (8:46)


(a continuar...)

30/08/2017

A espanholização económica de Portugal


Segundo o estudo "Participação Estrangeira no Capital das Empresas Portuguesas", realizado pela consultora Informa D&B em 2016, o capital espanhol é o mais presente na economia portuguesa, com os espanhóis a controlarem 1843 empresas no valor de 90,3 mil milhões de euros (dois terços deste valor está na Banca).

Para se ter uma ideia do domínio espanhol na economia portuguesa, os quatro países estrangeiros que se lhe seguem (França, Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha), todos juntos, não chegam ao volume que Espanha representa.

Tudo somado, o valor destas participações estrangeiras ascende a 170 mil milhões de euros, praticamente 95% do PIB português.

O estudo foi divulgado no dia em que o banco espanhol CaixaBank lançou uma oferta pública de aquisição sobre o BPI.

A consultora Informa D&B é detida pela CESCE, sociedade anónima participada maioritariamente pelo Estado Espanhol.

24/08/2017

A chegada dos primeiros escravos


No outro dia, que eram oito dias do mês de Agosto, muito cedo pela manhã, por razão da calma, começaram os mareantes de correger seus batéis e tirar aqueles cativos para os levarem, segundo lhes fora mandado; os quais, postos juntamente naquele campo, era uma maravilhosa coisa de ver, cá entre eles havia alguns de razoada brancura, formosos e apostos; outros, menos brancos, que queriam semelhar pardos; outros tão negros como etíopes, tão desafeiçoados assim nas caras como nos corpos, que quase parecia aos homens que os guardavam, que viam as imagens do hemisfério mais baixo.

(...)

O Infante era ali em cima de um poderoso cavalo, acompanhado de suas gentes, repartindo suas mercês como homem que de sua parte queria fazer pequeno tesouro, cá de quarenta e seis almas que aconteceram no seu quinto, mui breve fez delas sua partilha, cá toda a sua principal riqueza estava em sua vontade, considerando com grande prazer na salvação daquelas almas que antes eram perdidas.
E certamente que seu pensamento não era vão, cá, como já dissemos, tanto que estes haviam conhecimento da linguagem, com pequeno movimento se tornavam cristãos. E eu, que esta história ajuntei neste volume, vi na vila de Lagos, moços e moças, filhos e netos destes, nados nesta terra, tão bons e tão verdadeiros cristãos, como se descenderam do começo da lei de Cristo, por geração, daqueles que primeiro foram baptizados.

Gomes Eanes de Zurara in «Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné», 1453.

21/08/2017

O fenómeno da "espiral do silêncio"


O termo "espiral do silêncio" foi cunhado pela alemã Elisabeth Noelle-Neumann para explicar a razão pela qual as pessoas tendem a permanecer silenciosas quando têm a sensação, por vezes falsa, de que as suas opiniões e mundividências estão em minoria. O modelo do conceito de "espiral do silêncio" baseia-se em três características:

1. As pessoas têm uma percepção que lhes permite saber qual a tendência da opinião pública, mesmo sem ter acesso a sondagens;
2. As pessoas têm medo de ser isoladas socialmente ou ostracizadas, e sabem qual o tipo de comportamento que poderá contribuir para esse isolamento social;
3. As pessoas apresentam receio em expressar as suas opiniões minoritárias, por medo de sofrer isolamento da sociedade ou do círculo social próximo.

Quanto mais uma pessoa acredita que a sua opinião está mais próxima da opinião pública maioritária, maior probabilidade existe que essa pessoa expresse a sua opinião em público. E se a opinião pública entretanto mudar, essa pessoa passará a reconhecer que a sua opinião já não coincide com a opinião da maioria, e terá menos vontade de a expressar publicamente. À medida que a distância entre a opinião da pessoa e a opinião pública aumenta, também aumenta a probabilidade de essa pessoa se calar publicamente.

Os meios de comunicação social são um factor essencial no estabelecimento da "espiral do silêncio", na medida em que formatam a opinião pública. Perante uma opinião pública formatada, as pessoas que não concordam com a mundividência emanada da comunicação social, tendem a entrar em "espiral do silêncio" – muitas vezes constituindo uma "maioria silenciosa".

Adaptado de «Sofos: Expressões Filosóficas».

17/08/2017

A propósito de António Sardinha


Nesse ano de 1919, em Janeiro, é proclamada a Monarquia do Porto que, em 13 de Fevereiro, foi vencida. António Sardinha, que colaborara nesse acontecimento, vê-se obrigado a abandonar o País e a refugiar-se em Espanha.
O mal que a Espanha fez a António Sardinha é coisa que ainda não foi suficientemente apreciada. [pág. 17]

Quando António Sardinha regressou a Portugal, a primeira vez que o encontrei, na Rua do Carmo, fiz menção de me dirigir a ele. Ergueu os braços, gritando-me: «Não me fale! Não me fale!». [pág. 19]

Algumas vezes resmunguei. Mas porque considerei tudo mera borbulhagem de varíola politiqueira de campanário, puro acidente de desencontro sanável – quando Sardinha morreu, em Janeiro de 1925, escrevi na Acção Realista artigo de homenagem que, pela sinceridade, pelo equilíbrio dos juízos, penso ainda hoje que é um dos melhores, senão o melhor dos estudos sintéticos até agora consagrados à obra do autor do Ao princípio era o Verbo e do Tronco reverdecido.
Sempre que, depois dessa data, me tenho referido a Sardinha, é sempre com respeito e justiça, – prova de que me estava no propósito varrer do meu espírito, a recordação penosa das injúrias que da sua pena recebi. [pág. 21]

Não. No período que vem desde 1914 a 1925, durante a vida de Sardinha, e no que se lhe segue, desde 1925 até à hora em que escrevo, não houve apenas o Integralismo Lusitano e os seus chefes dirigentes.
O silêncio sistemático que se faz à volta do mais que houve, não o arranca, não o apaga da História da Contra-Revolução portuguesa e da Filosofia política.
Pode induzir em erros as gerações fúteis e superficiais que se têm sucedido; pode alimentar a má vontade dos falhos, e as ambições dos videirinhos ou gafados.
Mas os livros, as revistas, os jornais, toda essa soma de fontes indispensáveis ao historiador escrupuloso e sério, que até agora tem vivido afogada, abafada, ocultada, por força da ignorância e da má-fé, está nas bibliotecas públicas e particulares, e nem a ignorância nem a má-fé a farão desaparecer da vida.
E quando, amanhã, a crítica impessoal, responsável e honesta, nas suas intenções e nos seus processos, chamar a si este período da história portuguesa, verificará a existência de acontecimentos, trabalhos e pessoas que até agora, a crítica «mentirosa, torpe e grosseiramente injusta» (Bettencourt e Galvão dixit) tem ocultado, abafado e afogado!
Não! Não houve só o Integralismo e os seus chefes dirigentes! [págs. 28-29]

Que foi, afinal, António Sardinha?
Nada do que os seus panegiristas ineptos proclamam; foi o que a sua obra define.
Que é a sua obra?
Historiador? Erudito? Sardinha nunca foi historiador e erudito. Desconhecia as fontes directas, originárias. A sua leitura era larga, mas de segunda mão. [págs. 33-34]

Isso a que se chama, no meio de muito ruído de tambores e pratos de metal, a obra histórica de António Sardinha, não passa de obra de vulgarização polémica em que o escritor substituiu o sinal mais pelo sinal menos, ou vice-versa, não em consequência de estudos pessoais, ou pesquisas originais, mas apenas em obediência a propósitos que, de forma alguma, se podem chamar científicos. [pág.34]

Não há talvez, em Portugal, quem fale mais em Fustel de Coulanges, do que Sardinha; e ninguém anda mais afastado do que ele, dos métodos do insigne historiador das Instituições políticas da antiga França.
Fustel de Coulanges é escravo do documento, e ergueu o seu edifício sobre documentos; António Sardinha manuseou livros de opiniões, folheou autores; não estudou documentos, em Arquivos, nem sequer consultou Cartulários publicados! Não fez História: trabalhou sobre história feita. [págs. 34-35]

É aí que está a explicação das contradições de António Sardinha, como aquela famosa de, uma vez, e com toda a razão, chamar «usurpação sinistra dos Filipes» (O Valor da Raça, pág. 165) ao período da nossa sujeição a Castela, para, depois, pretender convencer-nos de que «se Filipe II ascende ao Trono de Afonso Henriques, ascende como sucessor do Mestre de Avis, invocando títulos jurídicos, em que a força das armas não intervém senão como argumento decisivo, sim, mas a empregar em último recurso» (Aliança Peninsular, pág. IV). [pág.35]

Um exemplo muito significativo ilustra superabundantemente a minha crítica.
Querendo provar-nos que o Absolutismo triunfante no século XVIII não era «a vontade caprichosa do Soberano», em que se funda António Sardinha? Na afirmação do autor de certo Tratado de Direito Constitucional! E autor francês!
O argumento é inoperante – porque aos dizeres de uns autores, opõem-se os dizeres de outros. Mas não é inoperante o texto da Rainha de Portugal, D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V, quando definiu a função régia: «Os Reis são os Executores e os mais ilustres Vassalos das Leis do Reino». Pois não teria mais autoridade, para definir o Absolutismo Régio, a Rainha absoluta que o exercia? [pág. 36]

Porque não fatigou os olhos no estudo dos documentos, tem a audácia de afirmar entonadamente que D. Afonso I e o seu filho D. Sancho se intitularam «reis dos Portugueses», como se não tivessem usado outros títulos que provam que a significação dada por Sardinha àquela expressão é manifestamente errada. (...)
Para Sardinha, em Castela, a terra pertencia ao Rei; em Portugal, não. Daí os Reis serem, em Castela, «de Castela», e em Portugal, «dos Portugueses»!
Mas os documentos desmentem-no. [pág. 37]

O livro em que isto se encontra é muito gabado – por quem não reflecte no que lê, e é propenso a deixar-se ir na corrente doce do ribeiro. Refiro-me à Aliança Peninsular em que Sardinha desenvolve e glosa a tese esboçada por Moniz Barreto, e vincada por Oliveira Martins em artigos de jornal.
A tese é má, por perigosa, e partir de premissas falsas. Sardinha mói e remói, pisa e repisa os argumentos, num tecido pastosos de sofismas, erros, digressões, juízos tendenciosos e quimeras absurdas.
Hipólito Raposo, um dos seus amigos íntimos, confessa que o autor, pouco tempo depois do aparecimento da Aliança Peninsular já «se sentia desgostoso e magoado com pessoas e instituições de além-fronteiras por certas razões e circunstâncias» que não deseja revelar.
Pois é pena que o não revele, porque essas razões poderiam em muito evitar contágios indesejáveis.
E Hipólito Raposo continua: «Depois da morte dele, ao meu conhecimento vieram, e por mim passaram alguns dados dos quais seguramente deduzi que não eram compreendidos e aceites em toda a pureza da sua sinceridade, em todo o escrúpulo do seu patriotismo, os esforços do nosso querido companheiro» (Vanguarda, de Coimbra, 17 de Março de 1928).
Esse livro não afecta o carácter de Sardinha ou o seu amor à Pátria; mas afecta a sua inteligência e a sua cultura, e serve – ai de nós! – desígnios hostis ao interesse nacional.
Importa pouco que esses desígnios ultrapassem o objectivo do escritor, ou se manifestem à margem dele. Mas importa muito que utilizem o livro como seu instrumento.
Esse livro é uma triste monstruosidade. E o depoimento insuspeitíssimo do Sr. Hipólito Raposo é a sua condenação irrevogável.
A História objectiva ensina precisamente o contrário do que António Sardinha pretende convencer os seus leitores.
Só um português cego pela paixão mais doentia, ou por demência calamitosa, pode aceitar a unidade hispânica, como a concebeu Sardinha: «a unidade hispânica exige que os dois povos se mantenham livres no seu governo interno, embora ligados militar e diplomaticamente para a defesa comum, porque comum, pensando bem, é o património que a ambos pertence» (págs. 63 e 64).
Esta tese está visceralmente, substancialmente errada. Não posso evidentemente desenvolver a minha oposição a ela, porque os meus argumentos emanam dos factos, e eu não posso discutir ou comentar os factos.
Mas a inteligência do leitor esclarecido e independente facilmente suprirá o meu silêncio.
A tese vincara-a Oliveira Martins, quando dizia que «devemos outra vez aliar as nossas forças no propósito de uma defesa comum», depois de ter proclamado: «união de pensamento e acção; independência de governo» (Dispersos, II, págs. 216 e 219).
Espero que as gerações futuras, ainda não tocadas da mitomania que por aí vai, e porventura dela afastadas pelos esforços do meu espírito e doutros como eu, sepulte para sempre esse livro nefasto e essa tese demoníaca, no silêncio e no desprezo.
Que as circunstâncias de um momento possam conduzir-nos a uma cooperação ocasional, compreendo; mas transformar essa precaridade, essa momentaneidade, em perenidade e sistema, em princípio e norma de vida, só pode pretende-lo quem desconheça por completo a História de oito séculos de Portugal, ou a conheça mal, – que é ainda pior.
Tenho permanentemente diante de mim, os juízos e desejos dos altos espíritos, como Juan de Valera ou Menendez y Pelayo que valem mais, para mim, na sinceridade do seu pensamento puro, desinteressado e livre de preconceitos políticos ou respeitos e conveniências, do que todos os argumentos de António Sardinha ou de Oliveira Martins.
Entre a hostilidade, que formalmente condeno, e a tese que António Sardinha foi buscar a Oliveira Martins, de uma política militar e diplomática comum, que decididamente rejeito, há lugar para a única posição sensata que a História justifica: a da simpatia fundada na compreensão recíproca da independência plena dos nossos respectivos interesses, – o que não exclui, é óbvio, qualquer entendimento eventual que as circunstâncias aconselhem, como em 1936.
Tanto Oliveira Martins como Sardinha, seu eco, falam muito na política da Dinastia de Avis, chamando-lhe política de cooperação.
Mas isto é uma escandalosa falsificação da História, contra que protestam todos os textos!
Nunca, até ao advento do Liberalismo ou da Revolução, a política portuguesa se orientou no sentido de comunidade militar ou diplomática. Parece incrível que se diga o contrário.
Se António Sardinha tivesse sido historiador e erudito, nunca teria escrito as páginas infelizes da Aliança Peninsular, que, no seu conjunto, não passa de simples romance. [págs. 39-43]

Tinha, indiscutivelmente, apreciável cultura literária, que lhe forneceram principalmente escritores franceses, castelhanos ou brasileiros do nosso tempo. Os seus livros estão recheados com transcrições de um número limitado de autores das três literaturas, e são estes que lhe ministram, em segunda mão, os conhecimentos, informações ou sugestões de que a sua inteligência se alimenta, para o desenvolvimento das suas teses.
Já tive ocasião de provar que não conheceu S. Tomás directamente, dando por tomistas doutrinas que eram apenas de comentadores muito posteriores.
Qualquer poderá verificar, se se quiser dar a esse trabalho, que os próprios textos pontifícios às vezes citados na obra de Sardinha emanam de versões francesas e não dos originais latinos.
Ora a erudição exige que nos reportemos às fontes originárias e não aos discreteadores, por muito fiéis que sejam. Dá mais trabalho, mas são mais firmes os passos. [pág. 43]

António Sardinha não foi um pensador reflectido e meditativo; foi um pensador impressionista.
As ideias científicas que nos deixou são raras; o que ficou da sua acção, principalmente, foram emoções.
Não formulou nem resolveu problemas de Ciência ou Erudição. Foi brilhante, muitas vezes; nunca foi profundo. [pág. 44]

António Sardinha morreu cedo – para a sua família e para os seus amigos. Morreu, porém, a tempo, para o seu nome.
Há homens que só lucram em não sobreviver a certos acontecimentos. Na nossa vizinha Espanha, José António Primo de Rivera. Em Portugal, António Sardinha.
José António, porque morreu nas circunstâncias que todos conhecem e no momento que ninguém ignora, está, hoje, no Escorial, junto do Panteão dos Reis de Espanha! Onde não estão Menendez Pelayo, ou Balmes...
António Sardinha, porque morreu em 1925, anda por aí aos ombros de uma turba de medíocres ou falsários do Espírito que não o leram, nem são capazes de o ler.
Se José António fosse vivo, é muito possível que estivesse, a esta hora, no exílio, a contemplar a sua glória de fundador da Falange – se não preferisse conformar-se.
Quanto a António Sardinha...
Vimo-lo, nos últimos tempos da sua vida, acamaradar com uma chafarica de «homens livres», sabujando dois autênticos mistificadores e malfeitores da Inteligência – Raúl Proença e António Sérgio (veja-se o desgraçado artigo Almas republicanas, no livro Purgatório das Ideias, pág. 279); vimo-lo gritar às gentes emparvecidas: «Monarquia? República? Oh! A balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem!».
Ora através dos catorze volumes que constituem a sua obra, precisamente o que se vincou, proclamou, ensinou, e repetiu, foi que Monarquia e República eram realidades acima de tudo expressivas...
Para onde o teriam levado os acontecimentos, se ainda fosse vivo?
As tendências manifestadas nos últimos meses da sua vida induzem-me a crer que, tendo abandonado a doutrina do primado do político para lhe substituir a do primado do social, estaria hoje integrado inteiramente na orientação que inspira a vida política portuguesa, a qual aliás, pressupõe, indiscutivelmente, o primado do político, sem o que não existiria.
E é isso que proclamam os que fazem variações cómicas nos clarins e cornetins, na pista da Inquietação e da Presença. [págs. 45-46]

Alfredo Pimenta in «A propósito de António Sardinha», 1944.

15/08/2017

Assim nasceu o Mosteiro da Batalha


Na manhã de 14 de Agosto de 1385, momentos antes da Batalha de Aljubarrota, o príncipe D. João, Mestre de Avis, fez um voto solene à Santíssima Virgem, no qual se comprometia a erigir um mosteiro em Sua honra, em caso de vitória portuguesa. E assim aconteceu. Na véspera da Assunção de Maria, o pequeno exército português (de 7.000 homens) conseguiu um triunfo retumbante sobre o poderoso exército castelhano (de 40.000 homens). O príncipe D. João cumpriu a sua promessa, e terminada a guerra, mandou edificar o Mosteiro de Santa Maria da Vitória ou Mosteiro da Batalha.

13/08/2017

O rapto dos Pastorinhos de Fátima


À medida que se aproximava o 13 de Agosto de 1917, a notícia das aparições de Fátima espalhou-se por todo o país. A imprensa liberal-maçónica [e republicana] tomou um interesse especial no assunto, não descuidando qualquer oportunidade para o denunciar e espalhar falsidades sobre os três pastorinhos. Quando se tornou evidente que estas tácticas não conseguiam afastar as multidões de peregrinos, cuja fé os levava a viajar de longe para estarem presentes quando Nossa Senhora aparecesse, a imprensa declarou, à maneira anticlerical do costume, que o clero andava a enganar o povo para lhe extrair dinheiro. E apelava com vigor às autoridades para que actuassem.

A autoridade local de Fátima era Artur de Oliveira Santos, Administrador do Concelho de Vila Nova de Ourém e anticlerical fanático. Também conhecido pela alcunha de "Latoeiro", era um maçon a quem o seu cargo dava um poder considerável, e governava o seu Concelho de forma tirânica, impondo restrições às igrejas e às cerimónias religiosas ao seu mínimo capricho. O Latoeiro decidiu pôr um fim à piedade popular resultante das aparições de Fátima, usando os meios que entendesse serem necessários.

A 10 de Agosto, os pais dos três videntes de Fátima, Manuel Marto e António dos Santos, receberam ordem de se apresentarem no dia seguinte, com os seus filhos, em Vila Nova de Ourém. Era um percurso de quinze quilómetros, sem outro meio de transporte que não fosse ir de burro, ou então ir a pé. Manuel Marto recusou-se a obrigar os seus dois filhos pequenos a fazer essa viagem ou a aparecerem em tribunal, e decidiu ir sozinho. Por seu lado, António dos Santos queria que a sua filha Lúcia se explicasse por si própria. O Latoeiro ficou furioso com a ausência do Francisco e da Jacinta.

Sobre a sua experiência com o Latoeiro, Lúcia escreveu:
"Na sede da Administração, fui interrogada pelo Administrador, na presença do meu Pai, do meu Tio e de vários outros senhores que me eram estranhos. O Administrador estava decidido a forçar-me a revelar o Segredo e a prometer-lhe que não tornava a ir à Cova da Iria. Para alcançar este fim, não se poupou a fazer promessas, nem sequer ameaças. Vendo que não conseguia nada, mandou-me embora, mas protestou que havia de conseguir o que queria, mesmo que para isso tivesse de tirar-me a vida."

A 12 de Agosto, começaram a chegar multidões à Cova da Iria, preparando-se para a aparição esperada para o dia seguinte. Na manhã de 13 de Agosto, o Administrador chegou à casa dos Martos para ver as crianças. Convenceu os pais de que desejava "ver o milagre" com eles, e primeiro foram juntos falar com o pároco da freguesia. Depois de responder a umas perguntas, o Administrador fez os pastorinhos entrar para o seu carro. Este começou primeiro a andar em direcção à Cova da Iria, mas de repente deu meia-volta e seguiu para outra direcção. O Administrador tentou serenar os pastorinhos, dizendo-lhes que iam ver o pároco de Ourém. Para que os peregrinos a caminho da Cova da Iria não vissem os pastorinhos, cobriu-os com um cobertor. Finalmente chegou em triunfo a sua casa; acreditava que, se eles fossem impedidos de ir à Cova, não aconteceria nada de sobrenatural e o assunto das aparições chegaria ao fim.

Quando chegaram à casa do Latoeiro, os pastorinhos foram fechados numa sala e disseram-lhes que não sairiam dali até revelarem o Segredo. A bondosa mulher do Latoeiro deu-lhes o almoço, deixou-os brincar com os seus filhos e fez para que não lhes faltasse nada. No dia seguinte tiveram de passar por nove interrogatórios, mas os pastorinhos, fortificados por uma graça especial, não cederam.

O Latoeiro queria saber o Segredo, custasse o que custasse, mas não conseguiu obtê-lo nem confundir os pastorinhos para que se contradissessem uns aos outros. Até chamou um médico, para poder acusá-los de alucinações e histeria. As conclusões do médico nunca foram publicadas; e este facto é de grande importância, porque se o médico concluísse que as crianças estavam alucinadas, o Administrador não hesitaria em publicar-lhe o testemunho sem mais demoras.

Em seguida, o Latoeiro mandou os pastorinhos para a cadeia, que estava cheia de outros presos. Foram então interrogados separadamente, após o que o Latoeiro ameaçou mandá-los ferver em azeite se continuassem a recusar-se a contar-lhe o Segredo de Fátima. Na presença deles, mandou que pusessem a aquecer um caldeirão de azeite, e ameaçou-os que os punha no caldeirão se não colaborassem. Os pastorinhos acreditaram na ameaça do Latoeiro. Um homem que estava na cadeia tentou convencer a Jacinta a ceder, dizendo-lhe que bastava contar o Segredo para escapar a ser morta. A Jacinta respondeu: "Antes morrer!"

O Latoeiro levou primeiro a Jacinta. O Francisco e a Lúcia acreditaram que a levava para a morte. O Latoeiro regressou e disse-lhes que a Jacinta estava morta. Exigiu-lhes de novo que lhe revelassem o Segredo, ou também seriam fritos em azeite. O Francisco foi depois levado, aparentemente para a sua morte. Em seguida, o Latoeiro ameaçou a Lúcia com o mesmo destino se não colaborasse; mas a Lúcia manteve-se fiel, embora acreditasse que os seus primos tinham sido mortos. Porém, tal não sucedera; era só uma ameaça vã. Mas nem com esta derradeira ameaça o Latoeiro conseguiu obter o Segredo. Na manhã seguinte (15 de Agosto), a seguir a um interrogatório final, deixou os pastorinhos regressar a Fátima, sem ter conseguido nada deles.

Fonte: «A Associação de Fátima».

12/08/2017

O activismo ou heresia da acção


"Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem" (Salmo 127)

Já dissemos em público documento, que devem ser chamados a melhores sentimentos quantos presumam que se possa salvar o mundo por meio daquela que foi justamente designada como a heresia da acção: daquela acção que não tem os seus fundamentos nos auxílios da Graça, e não se serve constantemente dos meios necessários à obtenção da santidade, que Cristo nos proporciona.

Papa Pio XII in «Menti Nostrae», 1950.

06/08/2017

Os falsos princípios do Direito moderno


É uma consequência do liberalismo exprimida por Leão XIII nestes termos: "É incalculável o número de almas que se perdem por causa das condições criadas aos povos pelos princípios do direito moderno". Examinai, por exemplo, o mal produzido pela liberdade de imprensa. Quantas almas corrompidas pela leitura dos maus jornais, as produções imorais e ímpias que abundam em todos os países. Quantas almas estão perdidas para sempre por causa desta protecção conferida de direito a todas estas edições literárias, científicas e outras. Quantas almas estão condenadas neste momento, que não o seriam, se esta maldita liberdade de imprensa não existisse. O mesmo acontece com a liberdade de ensino. O que permite aos fautores da desordem de ensinar as suas doutrinas e corromper os espíritos, senão esta liberdade absoluta que lhes foi benevolamente outorgada?

Pe. Philippe C.SS.R. in «Catecismo dos Direitos Divinos na Ordem Social», 1926.

02/08/2017

Mons. Fellay: Vaticano, Maçonaria e Nova Ordem Mundial


Tradução e transcrição das palavras de Mons. Bernard Fellay pronunciadas na entrevista, em 1999:

"Não é possível demonstrá-lo directamente, mas eu acredito que estas acções, estes comportamentos, pertencem a um plano global, um plano que foi preparado muito cedo, pelo menos desde o início do século XX, possivelmente até um pouco mais cedo, e que consiste no estabelecimento de um governo mundial com uma religião mundial. E todas essas acções servem de preparação para esta super-religião. O que, na verdade, é absolutamente incompatível com a Religião Católica e com a sua Tradição."

"A este ponto, sou obrigado a discernir a mão da Maçonaria e do seu trabalho no interior da Igreja. É particularmente significativo notar que, em 1992, um maçon de grau elevado, pôde constatar que havia quatro Lojas em actividade dentro do próprio Vaticano, a praticar o Rito Escocês, e que estas quatro Lojas são especialmente dedicadas ao Alto Clero do Vaticano. Assim, a Irmandade secreta está a trabalhar e a destruir, não apenas de fora, mas também desde o interior da própria Igreja, desde o seu seio."

29/07/2017

Causas da ingratidão


Se não me engano, três causas há da ingratidão dos homens: ou inveja, que, tomando por injúria os benefícios que se fazem a outros, não olha os que a ela se conferem; ou soberba, que cuida merecer mais do que lhe dão, e não sofre que alguém lhe seja preferido; ou cobiça, cujo fogo se não apaga com as mercês de Deus, antes se acende mais e, cobiçando o que está por ganhar, não se lembra do ganhado. Para esta não há serviço que não seja desserviço, nem liberalidade que não seja escasseza.
Estas três pestes da alma procedem da falta do conhecimento do verdadeiro bem e da perversidade de falsas opiniões, e de ser firme e mais dura nos homens a memória das ofensas que a dos benefícios, dos quais se perdem muitos por culpa de quem os dá ou de quem os recebe: aquele porque os assoalha e encarece, e este porque os não publica e deles se esquece. Mas a verdade é que entre todos os animais não há outro mais desagradecido que o homem.

D. Fr. Amador Arrais in «Diálogos», 1589.